Apresentação

Um dos aspectos mais notáveis da riqueza natural da região da Arrábida, na qual, em grande parte, se insere o concelho de Sesimbra, é a sua geodiversidade. Em complemento à biodiversidade, este conceito representa o que se pode considerar como a parte abiótica da natureza, que inclui, por exemplo, toda a diversidade natural de aspectos geológicos e geomorfológicos de uma região.

Com efeito, em Sesimbra, é abundante a ocorrência de locais com interesse geológico e geomorfológico, manifestado quer pelo excecional interesse científico de alguns locais, quer pelo interesse didático e cultural de outros. Grande parte destes locais tem sido objeto de estudos de diversa natureza, predominantemente de índole científica (teses, artigos publicados em revistas nacionais e internacionais e comunicações em congressos), mas também, de natureza mais didático-pedagógica (por exemplo, guiões de excursões, painéis interpretativos/ leitores de paisagem, e relatórios de atividades de campo para o ensino). À semelhança do património construído, estes locais de interesse geológico apresentam frequentemente características de monumentalidade que permite, segundo A. M. Galopim de Carvalho (1998*), designá-los de geomonumentos ou, numa concepção de cultura alargada ao conhecimento científico, de georrecursos culturais. Segundo o mesmo autor, “…importa divulgar e impor a ideia de georrecurso cultural como um património natural não renovável…” que, por este motivo, justifica defender e valorizar.

Alguns dos assim designados georrecursos culturais que se encontram na região de Sesimbra, usufruem já de estatuto de proteção na medida em que se encontram em áreas classificadas da Rede Nacional de Áreas Protegidas (e.g. Parque Natural da Arrábida), alguns até com classificação de Monumento Natural. Outros estão abrangidos por instrumentos de gestão territorial (e.g. POOC Sintra-Sado) ou em áreas sujeitas a condicionantes de ocupação do solo (e.g. em áreas designadas no âmbito da Rede Natura 2000); outros, ainda, não gozam de qualquer estatuto de proteção. Por outro lado, e independentemente das medidas de proteção que resultem da classificação dos diferentes locais, é importante referir que a classificação formal constitui um forte contributo para a valorização do património natural, na medida em que, a partir desse reconhecimento formal, as entidades responsáveis ficam incumbidas da sua protecção, conservação, promoção e divulgação, com o consequente reconhecimento pelo público em geral da sua existência.

 

Entendendo-se a cultura como elemento de identificação de uma comunidade e, considerando a notável variedade, quantidade e riqueza do património natural da região e o potencial do mesmo em termos científicos, pedagógicos e turísticos, considerou-se fundamental, proceder ao levantamento, identificação e interpretação dos sítios, visando a classificação, valorização e divulgação dos mesmos.

Os geossítios inventariados neste circuito estão agrupados pela sua classificação em função da respetiva escala, de acordo com classificação proposta por A. M. Galopim de Carvalho (op. cit.) :

  • a nível da paisagem – inclui áreas à escala quilométrica, observáveis a partir de pontos privilegiados de observação (e.g. miradouros);
  • a nível do sítio – refere-se a áreas à escala hectométrica, geralmente susceptíveis de delimitação e nas quais é possível circular no seu interior observando diferentes aspectos e pormenores;
  • a nível do afloramento – refere-se a ocorrências de menor dimensão, à escala decamétrica e muito localizadas.

Para cada local, é feita também uma breve descrição e são indicados os tipos e graus de interesse (cientifico, didático e cultural), a existência de estatuto de proteção, o grau de vulnerabilidade a fenómenos naturais e à ação antrópica e a indicação do tipo de acessibilidade.

Da lista de geossítios inventariados é importante realçar que três deles se encontram classificados como Monumento Natural desde 1997 (pelo Decreto 20/97 de 7 de Maio). São as já muito conhecidas jazidas de icnofósseis de Pedra da Mua, Lagosteiros e Pedreira do Avelino. Tendo em atenção a importância desta classificação formal, a Câmara Municipal de Sesimbra, no âmbito da revisão do Plano Director Municipal, prevê a classificação de âmbito local de outros cinco destes locais: Praia da Foz, Diatomitos da Amieira, Gesseira de Santana, Conglomerados intraformacionais do Alto da Califórnia e Conglomerados do Porto do Concelho.

Para além dos geossítios, um vasto conjunto de grutas, lapas e outras cavidades cársicas que se encontram abundantemente na região de Sesimbra, na sua maioria identificadas, inventariadas e exploradas no seguimento de trabalhos de investigação espeleológica desenvolvidos por uma ONGA local, o Núcleo de Espeleologia da Costa Azul, e que são também locais de reconhecido interesse geológico foram igualmente incluídos no mapa interactivo do GEOcircuito.

Do ponto de vista do património natural não geológico, o Espaço Interpretativo da Lagoa Pequena/Lagoa de Albufeira que, enquadrando uma Zona de Proteção Especial para Aves, torna acessível ao público uma das mais importantes zonas de circulação e nidificação de aves da Europa, foi também considerado como elemento a integrar o GEOcircuito de Sesimbra.

Numa perspectiva mais alargada de divulgação do património de Sesimbra, fazendo incluir outros elementos para além dos referentes ao património natural, acrescente-se que foram também incluídas no GEOcircuito de Sesimbra duas estações arqueológicas classificadas como imóveis de interesse público e contempladas na candidatura da Arrábida a Património Mundial da UNESCO como valores de cariz excepcional: a Lapa do Fumo e a Roça do Casal do Meio.



* Galopim de Carvalho, A. M. (1998) – Geomonumentos – Uma reflexão sobre a sua classificação e enquadramento num projecto alargado de defesa e valorização do Património Natural. Com. Inst. Geol. Min., Lisboa, t. 84, fasc. 2, pp. G3-G5.