Reportagem “Silêncio vamos entrar na Lagoa Pequena”

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São nove e meia da manhã de 26 de junho. A meteorologia anuncia o dia mais quente do ano, mas a esta hora, junto à Lagoa Pequena, no extremo oriental da Lagoa de Albufeira, corre uma aragem fresca, ou não estivéssemos nas margens de uma das maiores zonas húmidas de Portugal Continental, que é, ao mesmo tempo, um dos cinco sítios mais importantes na região europeia para circulação entre áreas de nidificação de várias espécies de aves. Um grupo de visitantes acaba de chegar de Lisboa equipado a rigor, como se fosse participar numa expedição: sapatos de caminhada, calças frescas, chapéu, óculos, cantil e mochila. O que se destaca, e é comum a quase todos, são as posto-observacaomáquinas fotográficas. Quem desconhece que está próximo do Espaço Interpretativo da Lagoa Pequena, estranha a sua presença. Quem conhece o novo equipamento, inaugurado a 2 de fevereiro deste ano, considera que o ritual já é comum. Desde que abriu ao público, já passaram por aqui centenas de visitantes, uns profissionais, como ornitólogos e biólogos ou, de alguma forma, interessados no estudo das aves, outros curiosos apenas, que acabam por ser seduzidos pela beleza que a natureza lhes proporciona. Aliás, a criação do perímetro visitável e infraestruturas, da responsabilidade do Instituto da Conservação da Natureza e da Biodiversidade (ICNB) e Câmara Municipal, tornou acessível ao público uma das mais importantes zonas de circulação e nidificação de aves da Europa. O projeto, cofinanciado pela Comunidade Europeia, começou na década de 80, com a definição de uma área de proteção que se encontra vedada e sob responsabilidade do ICNB, que compreende a Lagoa Pequena e o terreno alagado, denominado Lagoa da Estacada, a zona mais sensável do ponto de vista ecológico.

O grupo é recebido junto ao novo centro de informações, à entrada do recinto, por Conceição Barroqueiro, antropóloga da Câmara Municipal. A sua tranquilidade, em contraste com a ansiedade dos que chegam pela primeira vez a esta Zona de Proteção Especial, transmite de imediato a sensação de harmonia com tudo o que a rodeia. Talvez por isso conheça ao pormenor o conjunto lagunar, em particular o da Lagoa Pequena e o da Estacada. As aves têm ouvidos e pressentem muito facilmente a nossa presença, começa por explicar, reforçando a importância do silêncio.

ponteA área isolada, com grande diversidade de habitats e condições de abrigo, alimentação e nidificação para aves aquáticas, residentes e migratórias, é parte integrante da Lagoa de Albufeira, que tem uma superfície aproximada de 1,3 quilómetros quadrados. Parece que estamos em pleno Parque Jurússico, sussurra uma das visitantes, à chegada do primeiro ponto de paragem e após mais de 200 metros, entre o verde da vegetação. Aqui é possível observar o princípio do curso de água doce que liga a Lagoa da Estacada à Lagoa de Albufeira, a mais profunda de Portugal Continental. Num passo ágil, a guia encaminha o grupo para a margem norte da Lagoa da Estacada, na direção do Percurso das Garças.

Os visitantes seguem um trajeto e percorrem uma ponte em madeira, que lhes possibilita um olhar mais profundo sobre a flora e avifauna existentes. O arvoredo oferece-lhes sombra e permite aos mais atentos a contemplação dos cantos de algumas aves, como o Verdilhão ou o Chapim-azul, que habitualmente poisam no topo dos pinheiros. Neste lugar, coexistem também diversas plantas aquáticas como o caniço, o junco ou o bunho. Mas é o voar de uma Garça-vermelha que prende o olhar do grupo à chegada ao observatório. Esta espécie estival, facilmente avistada nesta época do ano, é conhecida por Garça-imperial, uma das mais interessantes espécies da família das Garças que existe em Portugal. Atualmente, a sua população encontra-se a diminuir, por isso tem estatuto de conservação em perigo. Aqui ainda é possível observá-la com alguma facilidade.

zona-alagadaMas há muitas outras espécies na Lagoa. Hélder Costa, ornitólogo, com diversos artigos publicados e um dos fundadores da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves, já registou cerca de 240. Há 30 anos que, por paixão à natureza e em particular pelas aves, assinala tudo o que observa na Lagoa. É fundamental analisar e cruzar dados, para comparar e compreender o porquê de certas espécies estarem a regredir ou a aumentar, explica. E o Camão é um bom exemplo.

Nos finais do século XIX inícios do XX esta ave residente existia em abundância, mas na década de 90, do século passado, desapareceu completamente, adianta, acrescentando que hoje é uma das aves mais fáceis de observar na área e também uma das mais cobiçadas pelos observadores. Maior que uma Galinha-d’água, destaca-se pela plumagem azul, que contrasta com o bico e patas vermelhas. As penas infracaudais são brancas, uma caraterística facilmente visível quando levanta a cauda. Tímido, esconde-se frequentemente por entre a vegetação.

posta-observacao2É após a passagem pelo Salgueiro Paludoso, a cerca de 950 metros da entrada do Espaço, que o grupo ouve, atento, o som desta espécie, pois a sua vocalização, que faz lembrar um trompete, denuncia a presença. A poucos metros do Observatório do Camão, um membro do grupo, fascinado pelo som e envolvência do lugar, quebra o silêncio e afirma em alta voz: Estamos, efetivamente, num pequeno paraíso.

Retomando o caminho, e passando uma vez mais pelo passadiço em madeira, que range levemente a cada passo, o grupo é conduzido ao miradouro seguinte. Neste lado da Lagoa vive um outro animal, entre a terra e a água, e que apenas poucos tiveram o prazer de observar. A nossa lontra é difícil de ver, confessa a técnica.

visitaAliás, a lontra foi motivo de um dos episódios mais divertidos desde abertura do centro, proporcionado por uma criança de 6 anos, que, quando questionada sobre a lontra, exclamou com a ingenuidade própria da idade: Eu vi-a! Estava ali ao pé das árvores, era grande e tinha um bico amarelo.

Os choupos, pinheiros, amieiros e um manto opaco de uma planta aquática, que ganha a cor das folhas na época quente e um tom avermelhado quando os ramos estão despidos, servem de refúgio a este animal semi-aquático, dificultando a sua observação.

Porém, despertar nos mais pequenos um olhar mais atento ao mundo que os rodeia, sensibilizando-os para a importância ecológica, estética e cultural desta zona é para a antropóloga municipal seguir no caminho certo para a sua defesa e proteção.

Ver de perto a lontra ou observar com mais pormenor uma determinada espécie, exige persistência, tempo e uma dedicação exemplar. É estimulante e viciante. Quero sempre saber mais, conclui Hélder Costa.

passadicoNo final da visita, a opinião era unânime. Vou voltar com certeza, para conseguir explorar e observar com mais tranquilidade todo o espaço, disse Arcílio Marteleira, que tal como a jovem Joana Graça, teve a noção de que uma visita em grupo só permite um primeiro contacto com um dos ecossistemas mais ricos e produtivos do mundo, em termos de riqueza natural e diversidade biológica.

in Sesimbr’Acontece n.º 67, de Julho/Agosto de 2012