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Carnaval à Moda Antiga

 

Inspirados pelas revistas brasileiras de Carnaval que havia na casa da avó, Marquinhas e os amigos de colégio pensaram em levar para as ruas de Sesimbra as ideias originais que chegavam do outro lado do Atlântico. Corria o ano de 1974 quando as primeiras fantasias começaram a tomar forma. Primeiro a de palhaço sem mascarilha, depois os malmequeres e jardineiros a cantar o Vira dos Malmequeres, de Tonicha, por fim os verdadeiros sons dos instrumentos e até um pequeno carro de rolamentos. «Acharam-nos tanta graça que nos pediram para sair na terça-feira de Carnaval à tarde», conta Maria Cândida Covas, mais conhecida por Marquinhas.

A revista que inspirava o grupo de Arménio Sousa era outra, à portuguesa, e brilhava nos palcos do Maria Vitória e Variedades. Eram conhecidos como os reis do Carnaval de Sesimbra, ou não tivesse o próprio Arménio sido o único Rei Momo da vila, que, montado num burro, pregou um divertido e sarcástico discurso. «Escolhíamos uma fantasia para cada noite e ao longo de quase trinta anos nunca repetimos nenhuma», assegura o membro do primeiro grupo de homens a mascarar-se de mulher, imitando umas esbeltas e provocantes misses. Bailarina, Branca de Neve e os sete anões ou um hilariante Circo, que actuou no Largo de Bombaldes, são fantasias que recordam com saudade.

Trinta anos depois de As Malvadas terem desfilado pela primeira vez mascaradas metade de homem e metade de mulher, também Lina Piedade revive as memórias do grupo, que ao longo de uma década não deixou indiferentes as centenas de pessoas que se deslocavam à vila de Sesimbra para assistir ao desfile de Carnaval. «Foram dos melhores momentos que passei. Foi muito engraçado em tudo, desde a confecção até ao vestir, passando pela atitude perante o público e entre nós». As escravas cor-de-rosa ou as mulheres-pássaro de fato de lamê estão ainda bem presentes na memória pelo enorme sucesso que tiveram. «Havia um interesse muito grande em ver como íamos. Os nossos fatos despertavam a atenção e depois nunca parávamos de dançar», justifica.

Apesar de terem existido apenas dois anos, os criativos e originais 21 também não passaram despercebidos. No início da década de 80, o grupo marcou a diferença pelos trajes fora do comum, pinturas elaboradas e fatos masculinos mais ornamentados. O primeiro ano ficou assinalado pelos tons laranja a lembrar habitantes do espaço, e o segundo pelas brilhantes e esverdeadas cobras, pintadas com enorme precisão. «Tirando alguma parte de costura, que ficava a cargo das mães, éramos nós que fazíamos tudo, mas eram momentos de convívio muito engraçados. Fartávamo-nos de rir», conta Mário Rodrigues.

Também para Maria Manuel e Graça Cardoso, do grupo Turumbamba, a confecção dos fatos deixou recordações bem divertidas. «Éramos nós que tínhamos de fazer tudo porque não havia nada. Passávamos horas na sede e isso proporcionava momentos bem divertidos. Depois íamos pregar partidas até de madrugada». Conhecidos pelos meninos do coro da igreja, saíram pela primeira vez fantasiados de romanos, com lençóis brancos e papéis metalizados. Depois seguiu-se o fato de rock and roll, Ali Babá, Branca de Neve e uma fantasia com máscaras de gesso, que fez esgotar o stock de vaselina e de gesso da farmácia.

Com ráfia, folhas de palmeira e eucalipto e penachos de canas, os Papuas fizeram uma autêntica revolução no desfile de Carnaval de 1985. Baseados nas tribos africanas, o grupo quis «marcar a diferença, utilizando materiais pouco habituais. Foi algo completamente diferente do vestido cozido tradicional», recorda João Casaca, um dos 40 elementos do grupo. Movendo-se como nos rituais tribais e interagindo com o público, os Papuas fizeram furor e contagiaram toda a gente. Como não havia muito dinheiro para fatos, procuraram solucionar o problema. Pediram sacas às mercearias e às lojas de pesca para conseguir a ráfia, passaram horas num aviário a arranjar penas e até mesmo a distribuição de fotografias do grupo serviu para angariar verbas.

Também as Bijucas encontraram ideias inovadoras para financiar os seus fatos. «As rifas não resultavam, as cartas para o comércio também não, por isso lembrámo-nos de começar a vender bolos porta a porta», diz Ana Maria Sousa. Formado apenas por raparigas, o grupo cativou tudo e todos com as roupas reduzidas e a irreverência característica da juventude. «Foram momentos espectaculares. Estávamos sempre desejosas de que chegasse a noite para fazermos os fatos. Divertíamo-nos muito», revela.

Apesar da grande animação e espectáculo que proporcionavam, o ano de 1989 marcou o afastamento dos grupos do desfile de terça-feira à tarde e consequentemente o fim de muitos deles. Actualmente, alguns ainda existem e com persistência continuam a manter viva a tradição do Carnaval de Sesimbra, percorrendo colectividades e bares até de madrugada.

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