“Génese de Sesimbra”

JoaquimRumina_Bazar1946 «(…)Todos os antigos nomes das ruas tinham o seu significado. (…) Ao caminho, que da Capela do espírito Santo conduzia ao Forte, chamaram naturalmente a Calçada do Espírito Santo, que se desenvolveu para cima quando se edificou a Paroquial de Santiago, em 1535 (…). Ao largo e rua juntos ao forte, que depois foi ampliado e passou a ser a Fortaleza de Santiago, chamaram Rua e Largo da Fortaleza de Santiago. (…). Quando (…) determinaram fazer a vereação na Ribeira, mandaram edificar uma casita com uma pequena torre onde guardavam a Arca dos documentos. Junto a ela limitou-se um largozinho que tomou o nome de Largo da Torrinha e o edifício, “Casa da Arca”. (…) começou a delinear-se uma rua que, da capela do Espírito Santo se dirigia para o Largo do Município: a Rua da Vila, depois Rua Direita, não porque fosse rectilínea, mas direita ao Município (…). Junto à casa da Câmara levantou-se o Pelourinho, símbolo do Município, outro largo se esboça: o Largo do Município ou Pelourinho. (…) Próximo da capela do Espírito Santo (…) constrói D. Belchior Beliago uma casa modesta para seu pousio (…). Desta casa se esboça uma rua no caminho que o Bispo de Tânger seguia de lá para a capela, quando ia celebrar, e outras duas perpendiculares a esta. Diz-se que foi D. Belchior que as baptizou com o nome das três virtudes teologais, que ainda hoje conservam: Rua da Fé, da Esperança e da Caridade. As duas perpendiculares vão terminar num grande terreiro  alcantilado onde se construíam os navios: o Largo da Marinha. (…). Na tira de terreno, que mais de frente olha o mar (…) os mareantes baptizaram-na (…) Rua da Galé. (…) sempre em demanda do norte, não podiam deixar de marcar este ponto cardeal com uma rua: Rua do Norte. Todos conhecem a sua religiosidade (…) aparecem as ruas de S. Pedro, o pescador, S. Paulo, o apóstolo, S. José, o patrono dos artífices, e Santiago, de cuja Ordem Sesimbra era comenda e por isso o escolheram para orago da freguesia da Nova Sesimbra. (…) é natural que uma rua tomasse o nome do taumaturgo para nela se festejar o santo com fogueiras à roda das quais se dançava e iniciavam os namoros, que continuariam nas ruas de S. João e S. Pedro nos seus dias festivos. (…) À Cruz de Cristo andavam os homens do mar sempre arrimados na sua vida de calvário. Daí a Rua da Cruz e o Monte do Calvário (…). Para comemorar a descida das mulheres da Sesimbra castelã para a Ribeira, dá-se ao seu arruamento o nome de Rua das Casteleiras. Da (…) necessidade de alojar gente e gado, aparece a Rua da Estalagem. Os da Ribeira são autorizados a ter padarias e surgem as Ruas das Farinhas e do Forno Velho. (…) resulta uma rua sem saída e o gentio, muito criteriosamente, cognomina-a de Rua do Saco. (…) o Sesimbrense (…) era (…) pacífico (…). Para comemorar esta (…) qualidade, dão a uma rua o nome de Rua da Paz. O acidentado solo (…) obriga a fazer-se escadas numa encosta. Os pescadores com os seus tamancos grosseiros escorregam constantemente (…), donde resulta a Rua do Quebra-Costas. Aparece um janota na terra de gente modesta que vai morar para rua ainda inominada e o povo alcunha-a de Rua do Alfenim. A vila estende-se para poente, torna-se necessária mais uma fonte (…). A Câmara satisfaz essa aspiração e, no caminho que para lá conduz, edifica-se e surge a Rua da Fonte Nova. Noutra rua trabalham os moinhos manuais e o indígena chama-lhe Rua das Atafonas. (…) estabelece-se um amolador de utensílios agrícolas e aí temos a Rua de Aguça-podões. Noutra o que afia as espadas (…) Rua do Barbeiro das Espadas. Quando no reinado de D. Filipe II, (…) foi nomeado guarda-mor da Costa de Sesimbra (…) deu este funcionário o nome à rua para onde foi morar: Rua do Guarda-Mor. Os mareantes sesimbrenses percorreram todos os mares, (…) até da Califórnia (…) e o povo, porque considera muito longínqua a fonte (…) ao nascente da praia grande, chama-lhe a Fonte da Califórnia. Outra fonte verte a sua água por uma bica de cana, um caninho (…). Quando a vila dela se aproxima forma-se o Bairro do Caninho. (…) Pessoas mais categorizadas mandam construir as suas habitações em sítios então ainda isolados (…) aí temos a Rua das Fialhas, senhoras da família de António Fialho, capitão-mor de várias armadas, fidalgo da Casa Real, Comendador da Ordem de Cristo e Governador de Damão. (…) o predomínio da mulher no lar, que levou o povo a dar a algumas ruas os nomes das mulheres de certas famílias, como segue: a Rua das Pinçoas, senhoras da família do capitão de mar Diogo Neto Pinção (…). A Rua das Severas, senhoras da família de Severa Galo Brioso (…). Estêvão Preto (…) também deu o seu nome a uma rua. Havia a Rua dos Cónegos, que tirou o nome dos cónegos Filipe de Oliveira Maia e Francisco Barroso de Faria que no século XVIII lá moraram. Os padres Manuel Preto e José Vaz também deram nome às suas ruas. (…) António Mendes, o primeiro médico municipal que foi para Sesimbra em 1608, transmitiu à rua para onde foi morar o nome de Rua do médico. As árvores que guarneciam (…) ruas também lhes transmitiam os seus nomes, como Rua das Figueiras, da Palmeira e dos Álamos. O principal alimento do gado deu nome à Rua da Palha. Os sítios, então das cercanias da vila, tomaram nomes (…) Boa Vista, a Cordoaria (…). Havia também nomes resultantes das qualidades dos moradores como a Rua da Galanducha, da Galopita, da Lapita (…) diminutivos de galante (…). Visto as ruas constituírem monumentos comemorativos, não podia deixar de haver (…) A Rua da Saudade. A Sesimbra do Castelo homenageou o astro-rei (…) numa rua, voltada ao nascente, a Sesimbra da Ribeira com outras para o poente: a Rua do Sol Posto. O mar (…) também teve na Ribeira o Sítio das Portas do Mar (…). Dos armadores que construíram arruamentos para os pescadores, pôs a Câmara os nomes nas suas esquinas; (…) a Rua Alípio Loureiro e Frade e Rumina. (…) o Largo da Marinha ou da Praia estava crismado em Largo dos Valentes. (…) o crismador tinha sido um papagaio (…) Naquele largo dirimiam-se questões pessoais e políticas (…) na janela (…) a ave imitadora da voz humana gritava-lhes: Aí valentes! Aí valentes! (…) Até um papagaio foi padrinho dum largo da Piscosa!»

Fonte: Guerra, Joaquim Preto (Rumina). Estudos históricos e outros escritos. Sesimbra: C.M.S. 2006, p.38-46.